Mercado de trabalho cada dia mais competitivo. Se falta emprego ou se as pessoas não estão qualificadas, essa é uma constatação difícil de ser alcançada. Uma divulgação de números e dados sobre pessoas formadas em universidades ou especializadas em algum campo profissional, como técnicos de informática, designers, auxiliares de enfermagem, mecânicos e outras profissões que exigem, no ato da contratação, pelo menos um certificado de experiência ou estudo (como os que o Senai oferece), não seria o bastante para traçar o perfil do empregado e do desempregado dos dias de hoje. Por que sobram vagas, mas também sobram desempregados?
Para responder esses questionamentos, foi escalado o especialista em recursos humanos, planejamento estratégico e administração, Marco Aurélio Ferreira Vianna. Autor de 37 livros e, em 2004, apontado pela revista especializada Exame como um dos 10 melhores consultores executivos do País, Vianna mistura respostas típicas de uma entrevista jornalística com a postura de quem está falando sobre um palco, armado de microfone e computador.
Ele ensina não só o que o futuro reserva para o mercado de trabalho e para os trabalhadores, como ressalta fatos atuais que podem ajudar tanto patrões quanto empregados a lidarem melhor com as suas rotinas profissionais. Ser competitivo? Ele acredita que esse pode ser o ponto forte de qualquer profissional. "Basta estar atento às necessidades do mercado", diz.
No mercado, muitas vezes, sobram vagas porque não há profissionais qualificados. Como o senhor avalia esse fato?
Não há dúvida disso. O Brasil vive hoje e, certamente, a América Latina e inúmeros países, um grande paradoxo. Da mesma maneira que falta o emprego tradicional, um número muito grande de formandos universitários não encontra emprego dentro da carreira para a qual se preparam. Por outro lado, há uma carência de talentos e capacitações. Então esse é realmente um fenômeno desta entrada do século XXI, que a gente tem que analisar com muito cuidado, e acredito que cabe à empresa ter uma consciência perfeita disso. Porque nesta época de competitividade, o capital intelectual é fundamental. A pessoa tem que estar extremamente capacitada para enfrentar os desafios.
O senhor não acha que o mercado pode vir a perder em crescimento por conta desses empregos não preenchidos, mesmo sabendo que existem pessoas formadas e teoricamente capacitadas procurando trabalho?
Aumentar a oferta de emprego no País é um problema cuja solução será a longo prazo. O que acontece especificamente com a formação universitária eu não diria que se aplica à formação técnica, visto que há uma grande procura (do mercado) pelos técnicos capacitados do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), por exemplo. Mas o fato é que as universidades crescem muito mais do que a demanda por emprego. É aí, então, que nasce esse paradoxo.
Estudar de quatro a seis anos em uma universidade pode ser considerado uma desvantagem por conta do cenário mercadológico atual?
Eu, de qualquer forma, penso positivo em relação a esse fenômeno. Acredito que, de alguma maneira, para um país como o Brasil, que tem um sistema educacional extremamente deficiente, mesmo com pessoas formadas que não encontram emprego, observa-se uma melhora do nível de capacitação delas. Enfim, acho que o Brasil está produzindo pessoas muito melhores, que a cada dia querem se profissionalizar mais.
O que o mercado quer de um bom funcionário hoje em dia?
Primeiro, que ele não seja funcionário. Que seja encarado como parte da empresa, como um verdadeiro colaborador. Eu diria até mais, como um parceiro. Ou até mais ainda, como um ser humano. Acho que a relação "capital-trabalho" tem que ser baseada em um forte sentido de parceria e de humanismo. Agora, sem dúvida nenhuma, a empresa hoje quer um colaborador diferente. A lista do que o mercado espera de um funcionário é extensa.
O senhor pode citar as características principais que constam nessa lista?
A primeira coisa é que a empresa quer funcionários que sintam vontade de se desenvolver. O Brasil é um país em que a palavra "ambição" é considerada negativa. "Ambição" tem origem na palavra inglesa "desire", que é um desejo muito forte. Não há nenhum campeão que não tenha ambição. O Ayrton Senna tinha ambição. Assim como o Pelé, Oscar Schmidt e a Daiane dos Santos. Ambição é uma vontade de crescer. Mas sem ser ganancioso, que é querer ganhar fácil. Então, em primeiro lugar, a empresa quer empregar pessoas que querem crescer. Segundo, gente que tem forte vocação para o aprendizado. A massa de conhecimento e tecnologia dobra a cada ano. E todos têm que estudar pelo resto da vida. Sinceramente, acho que, ao longo dos próximos cem anos, a mudança continuará e a educação continuada será fundamental em todo esse processo. Resumindo, a empresa quer alguém que queira estudar e aprender, sempre.
E as habilidades sempre avaliadas,como o espírito de equipe?
É claro que o empregador quer alguém com espírito de equipe. Vemos isso hoje até nos esportes coletivos. Esse espírito está nas empresas, organizações não-governamentais e até nos órgãos públicos. Empresários querem que o colaborador esteja disposto e não seja um individualista. Que seja, sim, uma pessoa pronta para criar um clima de harmonia no local de trabalho.
Que tipo de valores pessoais e profissionais o trabalhador deve possuir?
Nós recebemos uma cultura ibérica que nos deixou alguns vícios coloniais sérios. Em relação à educação no sentido de aprendizado, em relação ao trabalho, responsabilidade individual e a essa famigerada lei do egoísmo e de querer ganhar fácil. Eu entendo que a empresa vai querer alguém que já traga isso ou que esteja disposto de uma maneira forte a quebrar os seus próprios paradigmas, a quebrar o seu modelo mental e a se inserir nesse contexto de valores necessários a essa cooperação no século XXI. Estamos falando de amar o que se faz, amor pelo trabalho, mais do que tudo. E de assimilar o fato de que aprender é importante. Que a gente não estuda somente para fazer prova. Enfim, são valores engrandecedores que eu acho que as empresas querem. Mas é claro que as empresas têm de retribuir, oferecendo um ambiente que seja propício, um ambiente onde esses valores possam ser disseminados e assimilados por todos.
A que o empresário deve estar atento para formar um ambiente propício para o melhor aproveitamento de seus funcionários e também para o seu melhor desenvolvimento organizacional?
Infelizmente a grande maioria das empresas ainda não percebeu que seu verdadeiro diferencial competitivo é o ser humano. Sistemas e processos efetivos de comunicação, integração, sinergia, inteligência competitiva, administração do conhecimento, atração e retenção de talentos, capital intelectual, cultura, clima, remuneração variável, evolução de empregados para associados, entre outros, ainda são relegados a níveis ridiculamente baixos e incompatíveis com a necessidade de formação de um conjunto de fatores críticos de sucesso consistente com o momento atual. Quando em minhas palestras exponho minhas idéias sobre a elaboração de um "Balanço da Felicidade do Empregado" nas empresas, muita gente esconde o riso em um misto de uma postura de vergonha e espanto. Cada vez mais, comprova-se que cultura e ambiente humano acompanhados de um forte conjunto consolidado de crenças e valores, são indispensáveis para a construção do desenvolvimento sustentado de qualquer organização.
Notadamente, as mulheres não recebem o mesmo salário que os homens, ainda que exercendo o mesmo cargo. Com que olhos o mercado enxerga as mulheres? Com desvantagem?
Apesar do grande crescimento das mulheres no mercado de trabalho, algumas pesquisas indicam que elas já ocupam, nos EUA, 30% do corpo gerencial. O composto final do espírito e caráter de uma empresa ainda é predominantemente masculino. Em meu ponto de vista, eu iria até mais longe. Quando se usa, exclusivamente, as competências e qualidades masculinas, estamos jogando pela janela as indiscutíveis capacitações de caráter predominantemente feminino. Mais ainda, o mundo de hoje está necessitando dessas qualificações. Por que não incentivá-las e dar-lhes oportunidades?
Quais, por exemplo?
A intuição feminina é fundamental como ferramenta estratégica para a decisão no mundo da ambigüidade. Sua sensibilidade é imprescindível para gerenciar as emoções, hoje requisito muito acima do controle burocrático. Seu perfeccionismo é arma contundente para o exercício da qualidade e da inovação. E seu amor é a única atitude que gera o comprometimento: indispensável à competitividade destes dias.
O que observar para aproveitar o melhor do trabalhador e da trabalhadora?
A área de Recursos Humanos das empresas tem que colocar como prioridade em sua agenda estratégica a "Política de Otimização do Uso das Competências Femininas". É preciso perguntar-se se esses atributos estão sendo usados devidamente. É necessário ter consciência do balanceamento entre executivos dos dois sexos. Mais que tudo, é preciso fomentar a sinergia entre a capacitação de cada um. A proposta fica longe do confronto: ela é de sinergia, de união. Porque, sinceramente, o coração e o cérebro de uma empresa podem ter, de forma dominante, a essência masculina. Porém, as dimensões da emoção e de sua própria alma, estas sim, são indiscutivelmente femininas.
Em termos de escolha de carreira, existe a profissão do momento? Como escolher melhor o que fazer profissionalmente?
O que faz a diferença não é a carreira, mas sim a competência, a garra de cada pessoa. Agora, há um complemento importante que vai traçar e construir o seu futuro e você mesmo. No campo que você ama existe um leque muito mais amplo de alternativas. No patamar inferior (não que seja ruim, mas é uma escolha) você pode ser um medíocre professor de uma escola primária mal administrada. Se, no entanto, você seguir aquilo que já pensa, o futuro será bem diferente. Estude muito, jogue crença, energia, paixão, comprometimento na sua vida profissional. Crie uma diferenciação.
Revista Fibra Empresarial – Ano IV – N. 26 – junho / julho de 2006